Era da Resistência à Ditadura

Quando crescer também significou aprender a resistir
Os anos 1950 começaram com uma sensação de avanço. O Brasil se urbanizava em ritmo acelerado, Belo Horizonte se expandia para além de seus limites originais e o comércio se consolidava como um dos principais motores da economia urbana.
Para nós, comerciários, era um tempo de trabalho intenso, mas também de fortalecimento da organização sindical. A cidade crescia, o consumo aumentava e novas formas de comércio surgiam. Com elas, vinham oportunidades — e também novos desafios para garantir direitos em um setor que se expandia mais rápido do que a legislação conseguia acompanhar.
O crescimento da cidade exigia presença, organização e vigilância permanente.
Expansão da cidade e do comércio
Belo Horizonte se espalhava para além do Centro. Novos bairros surgiam, o comércio de rua avançava e lojas se instalavam cada vez mais próximas da vida cotidiana da população.

Mais lojas significavam mais empregos.
Mais empregos significavam mais comerciários.
E mais comerciários exigiam um sindicato mais estruturado.
O comércio se tornava parte central da dinâmica urbana, conectando bairros, trabalhadores e consumidores em uma cidade em plena transformação.
Crescimento da categoria e fortalecimento do sindicato
Nesse contexto de expansão, o sindicato passou por um processo importante de modernização administrativa e ampliação dos serviços oferecidos à categoria. O número de comerciários aumentava significativamente, e a entidade precisava se adaptar para atender uma base cada vez maior e mais diversa.
Fortalecemos:
o atendimento jurídico,
os serviços médicos e assistenciais,
o acompanhamento das condições de trabalho,
a presença cotidiana junto à categoria.
O sindicato se consolidava, cada vez mais, como uma instituição de referência na vida urbana de Belo Horizonte — um espaço de apoio, orientação e pertencimento para milhares de trabalhadores do comércio.
Novos direitos no horizonte
Os anos 1960 trouxeram conquistas importantes para as classes trabalhadoras no brasil. Eram frutos de lutas acumuladas ao longo de décadas, muitas delas protagonizadas pelos sindicatos. O Governo de João Goulart defendia as Reformas de Base. Ao passo que as forças populares se punham em movimento, setores reacionários e descontentes com a crescente mobilização popular arquitetavam um golpe.
Em 1962, foi instituído o 13º salário, um marco histórico que reconhecia o direito a uma remuneração extra no fim do ano, por meio da Lei nº 4.090, de 13 de julho de 1962.

Em 1963, o Estatuto do Trabalhador Rural ampliava o alcance da legislação trabalhista no país, pela Lei nº 4.214, de 2 de março de 1963.
Para nós, comerciários, esses direitos representavam avanços concretos. Mas também reforçavam uma certeza já conhecida: nenhuma conquista se sustenta sem organização permanente.
1964: o golpe e a luta nos anos de chumbo
O golpe militar de 1964 interrompeu o processo democrático brasileiro e instaurou um regime autoritário que marcaria profundamente a vida política, social e sindical do país. O golpe civil-militar que depôs João Goulart se desenrolou entre 31 de março e 1º de abril de 1964, abrindo caminho para a ditadura que se estenderia até 1985.

Para os sindicatos, iniciou-se um período de medo, vigilância e repressão. Em várias regiões, entidades sofreram intervenções diretas: diretores afastados, sedes fechadas, atividades suspensas.
Nosso sindicato se viu obrigado a agir com prudência extrema, estratégia e uma forma de resistência silenciosa.
Cada decisão precisava ser calculada.
Cada palavra, medida.
Resistir, naquele contexto, significava continuar funcionando, manter serviços, proteger a categoria e preservar a história construída ao longo de décadas.
E, ao final da década, o endurecimento do regime se aprofundou com o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, que marcou a fase mais dura da repressão política, com censura e suspensão de garantias.
O comércio em tempos de repressão
Mesmo sob a ditadura, o comércio não parou. As lojas continuaram abertas, o consumo seguiu crescendo e nós comerciários permanecemos no balcão, sustentando o cotidiano da cidade.
Trabalhávamos:
em jornadas longas,
com pouca margem para questionamento,
sob pressão constante,
em um ambiente político que desestimulava qualquer forma de contestação.
O sindicato concentrou sua atuação na defesa individual, na orientação jurídica e no atendimento direto aos trabalhadores. Era uma atuação menos visível, mas absolutamente essencial para garantir proteção mínima em tempos de repressão.
Cultura, cidade e vida cotidiana
Apesar da repressão política, a vida cultural seguia pulsando. A televisão começava a se popularizar, a música brasileira vivia um período fértil e os espaços urbanos se transformavam com o crescimento da cidade.
Belo Horizonte viveu, desde meados dos anos 1950, a experiência concreta da televisão local: a TV Itacolomi (Canal 4) foi oficialmente inaugurada em 8 de novembro de 1955, trazendo teleteatros, noticiários e entretenimento para a rotina urbana.
Para nós comerciários, o pouco tempo livre conquistado nas décadas anteriores continuava sendo precioso. Era nele que se encontravam espaços de convivência, lazer e afirmação da identidade popular — ainda que sob vigilância constante.
Você sabia?
O 13º salário foi instituído em 1962, após décadas de reivindicações, pela Lei nº 4.090, de 13 de julho de 1962.
O FGTS foi criado em 1966, pela Lei nº 5.107, de 13 de setembro de 1966, mudando a forma de proteção ao trabalhador em caso de demissão.
Após 1964, greves e mobilizações passaram a sofrer repressão sistemática, e o país entrou em um ciclo autoritário que se prolongou por duas décadas.
O AI-5, de 13 de dezembro de 1968, marcou o endurecimento mais severo da ditadura, com censura e ampliação do poder de exceção.
Em 1969, nasceu na Praça da Liberdade a feira que ficou conhecida como Feira Hippie, surgida espontaneamente e depois oficializada pela Prefeitura em 26 de outubro de 1973 — um dos símbolos mais duradouros do passeio dominical e da economia criativa de Belo Horizonte.

Assim era o Brasil e o mundo
O Brasil atravessava um período de grande instabilidade política, que culminou no golpe de 1964 e na instalação da ditadura militar. No cenário internacional, a Guerra Fria dividia o mundo, influenciando regimes políticos, economias e relações de trabalho.
O país viveu, ao mesmo tempo, fortes projetos de desenvolvimento e modernização — e o aprofundamento de um regime que passou a vigiar e restringir a vida pública. O endurecimento institucional de 1968, com o AI-5, cristalizou um período em que censura, perseguição política e repressão passaram a definir as regras do espaço público.
Belo Horizonte se consolidava como capital industrial e comercial, com o comércio assumindo papel central na geração de empregos urbanos.
Assim era o comércio
O comércio se modernizava gradualmente. Lojas maiores surgiam, os controles administrativos se tornavam mais rigorosos e as máquinas registradoras mecânicas se consolidavam como instrumentos de trabalho.
A remuneração seguia baseada no salário fixo, com o início ainda tímido das comissões em alguns setores. A moeda era o cruzeiro, e a estabilidade no emprego permanecia frágil.
No cotidiano, o comércio também passava a conviver com novas formas de consumo e comunicação: o rádio seguia forte, mas a televisão começava a ocupar o imaginário urbano — e, em Belo Horizonte, a presença da TV Itacolomi, desde 1955, ajudou a acelerar essa virada cultural e comercial.
Mais uma vez, o sindicato se afirmava como principal instância de proteção coletiva.
Política e cultura
- Vozes da política: em Minas Gerais, Juscelino Kubitschek ganha projeção nacional como governador no início dos anos 1950 e depois como presidente (1956–1961), símbolo do desenvolvimentismo. A década termina sob o impacto do golpe de 1964 e do início da ditadura militar, que altera profundamente a vida política e sindical do país.

- BH e vida pública: Belo Horizonte se consolida como capital cultural e urbana, com a Praça da Liberdade, o Centro e os cinemas de rua como espaços de convivência. A cidade vive a expansão de hábitos urbanos em cafés, praças e ruas comerciais, em um cotidiano em que trabalho e lazer se cruzavam.
- Música e cultura de massa: os anos 1960 são marcados pelos grandes festivais de música. “A Banda” (Chico Buarque) e “Disparada” (Geraldo Vandré e Théo de Barros) dividiram o primeiro lugar no Festival de Música Popular Brasileira de 1966 (TV Record), num dos momentos mais emblemáticos da cultura brasileira no período. Em 1967, “Ponteio” (Edu Lobo e Capinam) venceu o Festival de MPB, consolidando a era em que música, televisão e debate público se encontravam no centro da vida nacional.

- Personagens e cultura local: BH vive um período de efervescência artística e intelectual, com cafés e encontros no Centro reunindo estudantes, escritores e músicos — um caldo cultural que prepararia o terreno para o futuro Clube da Esquina.
- Educação e formação: instituições como a UFMG e escolas tradicionais reforçam Belo Horizonte como cidade formadora de gerações de trabalhadores, comerciários e intelectuais. O Colégio Estadual Central viveu um período decisivo a partir da implantação de sua nova sede em 1956, consolidando-se como referência do ensino público na capital.
- Cultura popular urbana: em 1969, nasce a feira que ficou conhecida como Feira Hippie, surgida espontaneamente na Praça da Liberdade, e que se tornaria um dos símbolos mais duradouros do artesanato, do passeio dominical e da identidade cultural belo-horizontina.