Capítulo 10 — Cem anos em marcha (1925–2025)

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O passado que nos trouxe até aqui — e o futuro que seguimos construindo

Porque a nossa história nunca foi apenas sobre trabalho. Sempre foi sobre dignidade.

Cem anos não cabem em um calendário.
Eles cabem na memória, no corpo e na experiência de quem viveu — e de quem vive — o comércio todos os dias.

Quando olhamos para trás, para a noite de 11 de junho de 1925, não enxergamos apenas uma ata, um endereço ou uma assinatura. Vemos homens e mulheres que decidiram dizer basta às jornadas intermináveis, ao silêncio imposto e à invisibilidade cotidiana.
Ali começava algo que atravessaria gerações:
a certeza de que nós comerciários só avançamos quando caminhamos juntos.

Este livro é o registro dessa caminhada coletiva.

Uma história escrita no balcão

Nossa história nunca foi escrita em gabinetes ou discursos distantes da realidade. Ela foi escrita:
atrás do balcão,
no caixa,
no estoque,
nas ruas,
nas assembleias,
nas greves,
nas negociações difíceis,
e, muitas vezes, no silêncio imposto pela repressão.

Atravessamos a República Velha, o Estado Novo, a ditadura militar, a redemocratização, as reformas neoliberais, a pandemia e a era digital. Em cada etapa, o comércio mudou — e nós mudamos junto.
Mas nunca abrimos mão daquilo que nos define: a identidade coletiva.

Direitos nunca foram concessão

Se há algo que cem anos de história nos ensinam, é isto:
nenhum direito nos foi dado gratuitamente.

Cada conquista — jornada, férias, 13º salário, descanso semanal, feriados, regulamentação da profissão, proteção jurídica — foi fruto de luta, organização e persistência.

Quando direitos foram ameaçados, o sindicato esteve presente.
Quando o medo tentou nos dividir, a organização nos manteve unidos.
Quando o trabalho adoeceu, o sindicato acolheu.

O sindicato nunca foi um detalhe da nossa história.
Ele é parte essencial da nossa sobrevivência como categoria.

O presente nos desafia

Chegamos ao centenário em um mundo profundamente transformado. A tecnologia redefine o trabalho, o comércio digital avança, as metas se intensificam e o tempo livre se torna cada vez mais raro.

Vivemos desafios concretos e urgentes:
adoecimento mental,
jornadas fragmentadas,
escalas abusivas,
precarização disfarçada de modernidade,
tentativas constantes de enfraquecer a organização coletiva.

Mas chegamos a esse tempo preparados.
Com memória, estrutura, experiência e base social. O sindicato que nasceu pequeno hoje atua em dezenas de municípios, dialoga com novas gerações e segue sendo referência de luta, acolhimento e resistência.

Democracia e trabalho caminham juntos

Nossa história deixa uma lição clara:
não existe direito trabalhista sem democracia.

Sempre que a democracia esteve ameaçada, os trabalhadores sofreram primeiro. Sempre que o autoritarismo avançou, os sindicatos foram atacados.

Por isso, ao longo de cem anos, o Sindicato dos Comerciários de Belo Horizonte e Região nunca se omitiu na defesa da democracia, da justiça social e dos direitos humanos.
Defender o trabalho sempre foi, para nós, defender um projeto de sociedade mais justa.

O futuro é coletivo

O Sindicato dos Comerciários de Belo Horizonte e Região carrega uma história grandiosa: são cem anos de lutas, resistência e conquistas em defesa de uma das categorias mais numerosas e essenciais da vida urbana. Ao longo de um século, atravessamos tempos ásperos, enfrentamos regimes de exceção, desafios econômicos e transformações profundas no mundo do trabalho. Em cada etapa, o Sindicato esteve presente como voz coletiva, instrumento de organização e força permanente na construção de direitos.

Essa trajetória foi escrita por gerações e gerações de comerciários e comerciárias — trabalhadores e trabalhadoras que, com coragem, construíram esta entidade com batalhas históricas, vitórias marcantes e um compromisso inabalável com a dignidade no trabalho. Nosso legado não é apenas memória: é bandeira erguida, é conquista defendida, é exemplo vivo de solidariedade e luta coletiva.

Hoje, com os olhos voltados para o futuro, sabemos que a nossa história nos trouxe até aqui e nos dá a certeza necessária para avançar. Temos planos ousados, um intenso processo de modernização em curso e a responsabilidade de honrar tudo o que foi conquistado. Defender direitos históricos e enfrentar novas batalhas é parte da missão que carregamos. E é com a força da nossa grande categoria, sustentados por cem anos de história, que seguimos adiante — certos de que ainda venceremos muito mais.

Este livro não é um ponto final.
É um ponto de passagem.

Ele fala com quem construiu essa história, mas também com quem está chegando agora ao comércio — jovens trabalhadores que talvez ainda não saibam que muitos dos direitos que hoje parecem naturais foram duramente conquistados.

A eles, deixamos uma mensagem simples e direta:
ninguém vence sozinho.

O sindicato seguirá existindo enquanto houver comerciários dispostos a lutar por dignidade, tempo de vida, respeito e justiça.

Política e cultura

Quando este livro era concluído, o país ainda vivia os efeitos da forte polarização política iniciada nos anos anteriores, marcada por ataques às instituições democráticas, disputas judiciais e tensões em torno da defesa da democracia. 

Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, respondia judicialmente por encabeçar a tentativa de ruptura institucional após as eleições de 2022. Seus apoiadores defendiam anistia ou redução de penas para envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023. 

As disputas políticas e institucionais ocupavam diariamente o centro do debate público em um período de elevada tensão nacional e as vésperas de eleições presidenciais. 

Esses acontecimentos não devem ser lidos como “fim da história”, mas como sinal de alerta: a democracia não é um bem automático. Ela é construída, consolidada e defendida todos os dias. Os tempos atuais nos deixam um ensinamento que ecoa por todo este centenário: nossa democracia não foi algo dado — foi algo duramente conquistado, consolidado e que precisa ser permanentemente defendido. Não podemos jamais renunciar a essa luta.