Capítulo 6 — 1990 a 1999

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Era da Profissionalização e das Ações Coletivas

Imagem gerada com IA ilustrando a manifestação de 1997 contra o trabalho aos domingos

Quando resistir passou a significar organizar melhor

Os anos 1990 chegaram como um choque. O Brasil saía do processo de redemocratização carregando expectativas de justiça social, mas mergulhava rapidamente em um novo modelo econômico. Privatizações, abertura comercial, desemprego estrutural e flexibilização das relações de trabalho passaram a fazer parte do nosso vocabulário cotidiano.

Para nós, comerciários, foi um período de tensão permanente. O comércio se transformava em ritmo acelerado, e o sindicato precisou se reinventar para continuar sendo referência em um cenário cada vez mais hostil aos direitos trabalhistas.

Resistir, naquele momento, passou a significar organizar melhor.

Um novo discurso contra direitos

A década começou marcada pelo governo Fernando Collor de Mello (1990–1992). Em 16 de março de 1990, o Plano Collor determinou o bloqueio de depósitos bancários e cadernetas de poupança acima de determinado valor, provocando forte impacto social e econômico. O confisco abalou empresas, empregos e a confiança da população.

Em 1992, o impeachment de Collor — formalizado pelo Senado em 29 de dezembro de 1992 — foi precedido por grandes mobilizações populares conhecidas como movimento dos caras-pintadas, símbolo da força da participação cidadã na jovem democracia brasileira.

No mundo do trabalho, o discurso patronal passou a tratar direitos como entraves ao crescimento e sindicatos como obstáculos à modernização. Para nós comerciários, isso se traduziu em um cotidiano mais duro:

aumento da informalidade,
alta rotatividade,
pressão crescente por produtividade,
tentativas constantes de flexibilização de jornadas e contratos.

A década também foi marcada por reformas estruturais e por um amplo programa de privatizações, especialmente durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995–2002), que acelerou a abertura econômica e a inserção do país na lógica da globalização.

Diante desse cenário, o sindicato precisou responder com mais preparo técnico, mais presença na base e mais ação coletiva organizada.

Domingos e feriados: uma luta que retorna

Durante os anos 1990, o trabalho aos domingos e feriados voltou ao centro das disputas no comércio. Empresários defendiam o chamado “horário livre”, associando-o à modernização e à competitividade.

Para nós, o significado era outro: menos descanso, menos convivência familiar e mais desgaste físico e emocional.

O sindicato intensificou campanhas públicas, negociações e mobilizações para defender algo que fazia parte da nossa história desde os anos 1920: o direito ao descanso semanal e ao tempo de vida.

Era uma luta antiga que retornava com força total, conectando o presente às conquistas do passado.

Em 1992, as ruas foram tomadas por grandes protestos que resultariam no impeachment de Collor, reafirmando que a democracia dependia de mobilização permanente.

1997: a greve da Elmo Calçados

O ano de 1997 marcou um dos episódios mais emblemáticos da década: a greve histórica da Elmo Calçados. Em meio a um ambiente de forte pressão patronal, insegurança no emprego e endurecimento nas negociações, a mobilização mostrou que a categoria seguia capaz de se organizar coletivamente, mesmo em tempos adversos.

A greve tornou-se símbolo de resistência e reafirmação da força sindical. Ao lado dela, ocorreram jornadas de luta contra o “horário livre”, que mobilizaram comerciários, ganharam visibilidade e recolocaram a pauta do descanso no centro do debate público.

Esses episódios reforçaram uma lição fundamental: mesmo em um cenário de ofensiva neoliberal, a ação coletiva continuava sendo instrumento decisivo de defesa dos trabalhadores.

Na sequência da greve da Elmo, o nosso Sindicato encampou uma grande mobilização contra o funcionamento do comércio aos domingos, que contou com uma ampla rede de apoio e foi marcada por uma grande manifestação que percorreu o centro da cidade e teve repercussão nacional.

Ampliação da representação e atenção aos aposentados

 

 

Foi também nos anos 1990 que o sindicato passou a representar oficialmente Belo Horizonte e Região, ampliando sua base territorial e sua responsabilidade institucional.

Nesse mesmo período, ganhou força a ASCOAP, associação voltada aos aposentados. Reconhecer os aposentados como parte ativa da entidade foi afirmar que a luta sindical não termina com o fim da vida laboral.

Cuidar de quem construiu a história também passou a ser missão permanente do sindicato.

 

O comércio muda — e o sindicato se estrutura

O comércio viveu transformações profundas ao longo da década: expansão das grandes redes varejistas, fortalecimento dos shoppings centers, avanço da informatização e mudanças no perfil do consumidor.

O Plano Real, lançado em 1º de julho de 1994, criou a nova moeda — o real (R$) — e estabilizou a inflação crônica que corroía salários havia anos. A estabilização monetária trouxe previsibilidade econômica, mas não eliminou desigualdades nem garantiu estabilidade no emprego.

Fernando Henrique Cardoso apresent o Plano Real

 

Nós comerciários passamos a lidar com:

metas mais agressivas,
controle informatizado de vendas e desempenho,
maior insegurança no emprego,
intensificação do ritmo de trabalho.

Diante desse cenário, o sindicato investiu fortemente na profissionalização da sua atuação:

fortalecimento do departamento jurídico,
ampliação do atendimento direto à base,
campanhas permanentes de esclarecimento e formação sindical,
atuação estratégica nas negociações coletivas.

Era preciso responder à altura de um tempo mais duro, competitivo e individualizado.

Cultura, cidade e cotidiano nos anos 1990

Os anos 1990 marcaram o início de mudanças culturais profundas. A internet comercial começou a operar no Brasil em 1995, inaugurando uma nova era de comunicação, consumo e organização social.

Belo Horizonte viu crescer os shoppings centers, os centros comerciais e novas formas de lazer urbano. A capital consolidava polos como a Savassi e expandia sua vida noturna e cultural.

Para os comerciários, essas mudanças significavam mais oportunidades de emprego — e também novas formas de exploração, metas mais rígidas e controle tecnológico crescente.

Você sabia?

O Plano Collor, em 1990, bloqueou depósitos bancários e cadernetas de poupança, impactando profundamente a economia e o comércio.

O impeachment de Fernando Collor, em 1992, foi precedido por grandes mobilizações dos caras-pintadas, símbolo da força da sociedade civil.

O Plano Real, lançado em 1994, criou o real e estabilizou a inflação após anos de hiperinflação.

A internet passou a operar comercialmente no Brasil em 1995, transformando comunicação e mercado.

A greve da Elmo Calçados, em 1997, tornou-se referência na luta dos comerciários da capital.

Assim era o Brasil e o mundo

O Brasil consolidava sua democracia em meio a políticas de orientação neoliberal, privatizações e abertura econômica. A década foi marcada por estabilização monetária, mas também por desemprego estrutural e precarização de vínculos de trabalho.

No cenário internacional, a globalização avançava rapidamente após o fim da Guerra Fria, com cadeias produtivas transnacionais, expansão do comércio mundial e fortalecimento do capital financeiro. O mundo do trabalho passava por transformações profundas, com maior competitividade e pressão por produtividade.

Era um tempo em que o discurso da eficiência tentava substituir o da proteção social — e em que os sindicatos precisavam se adaptar sem abrir mão de princípios históricos.

Assim era o comércio

O comércio passou a ser cada vez mais dominado por grandes redes varejistas, supermercados e shoppings centers, enquanto o pequeno comércio de bairro ainda mantinha forte presença na vida cotidiana.

Sistemas informatizados começaram a aparecer nos caixas, substituindo gradualmente os antigos equipamentos mecânicos. O controle de estoque e vendas tornou-se mais tecnológico, e a cobrança por metas passou a integrar a rotina.

A remuneração combinava salário fixo e comissões, enquanto a estabilidade no emprego diminuía. A formalização coexistia com crescimento da informalidade e terceirizações.

O sindicato tornava-se ainda mais essencial como instrumento de defesa coletiva em um cenário de individualização das relações de trabalho.

Política e cultura

  • Vozes da política: a década é marcada pelo impeachment de Fernando Collor de Mello (1992) e pela consolidação democrática sob os governos de Itamar Franco (1992–1994) e Fernando Henrique Cardoso (1995–2002), período de estabilização monetária e reformas estruturais.
  • BH e vida urbana: Belo Horizonte vive um período de forte dinamismo cultural. O Centro, Santa Tereza e a Savassi consolidam-se como territórios de juventude, boemia e encontros. Cafés e bares tradicionais seguem como referências, como o Café Palhares, o Café Nice e a vida noturna do hipercentro.
  • Pop rock mineiro em projeção: os anos 1990 consagram bandas de BH como Skank — formado em 1991 e projetado nacionalmente com o álbum Calango (1994) — e Jota Quest, fundado em 1993, que se tornam trilha sonora da juventude urbana brasileira.
  • Cena alternativa e criatividade: grupos como Pato Fu, criado em 1992, consolidam a diversidade musical mineira, reforçando Belo Horizonte como polo cultural além do eixo Rio–São Paulo

 

Pop Rock Brasil era um dos principais eventos do gênero nos anos 90 e atraía milhares de jovens para curtir os shows das principais bandas do momento

 

  • Personagens e imaginário boêmio: a literatura e a televisão ampliam o mito urbano de BH com a minissérie “Hilda Furacão” (1998), inspirada no romance de Roberto Drummond, ligada à Rua Guaicurus, e mantêm vivas figuras lendárias como Cintura Fina, parte da memória popular da cidade.
  • Futebol e identidade cotidiana: o América-MG conquistou a Série B do Campeonato Brasileiro em 1997, enquanto Atlético e Cruzeiro seguiam como paixões centrais na vida belo-horizontina, reforçando o futebol como elemento estruturante da identidade urbana.