Era da Fundação e dos Primeiros Passos

Quando nós comerciários aprendemos que só a união muda o relógio da cidade
Voltemos com calma, como quem abre uma gaveta antiga e encontra, dobrados com cuidado, os papéis de uma vida inteira.
A Belo Horizonte da década de 1920 ainda era uma cidade jovem. Planejada para ser moderna, administrativa e ordenada, carregava, no entanto, contradições profundas. Enquanto os prédios públicos afirmavam a autoridade do Estado, a vida cotidiana pulsava nas ruas, nos bondes, nas feiras e, sobretudo, no comércio.
O coração comercial da cidade batia forte na Rua dos Caetés — conhecida também como Rua dos Turcos. Ali se alinhavam armazéns, armarinhos, casas de secos e molhados, lojas de tecidos e de utilidades diversas. Era o comércio de balcão, da confiança, da conversa demorada, da caderneta anotada à mão.

Nós, comerciários, fazíamos esse mundo funcionar.
Trabalhávamos muito — e quase sempre sem limites claros. As jornadas começavam cedo e se estendiam noite adentro. Havia uma lei municipal, de 1921, que estabelecia o horário de funcionamento do comércio, mas, na prática, ela era frequentemente ignorada. A Lei Municipal nº 211 (1921) determinava, de modo geral, o fechamento até as 18h nos dias úteis e trazia regras específicas para diferentes ramos do comércio e serviços. Feriados eram tratados como dias comuns, e o descanso parecia sempre adiado para um futuro distante.
Enquanto isso, a cidade crescia. Novos bairros surgiam, o consumo aumentava, e o comércio se tornava peça central da economia urbana. Mas esse crescimento não vinha acompanhado de direitos. O trabalhador do comércio era invisível na legislação e pouco ouvido nas decisões políticas.
Foi nesse cotidiano duro que começamos a compreender algo fundamental:
sozinhos, éramos frágeis; organizados, poderíamos mudar o tempo da cidade.
A noite em que nossa história começa
(11 de junho de 1925)
Na noite de 11 de junho de 1925, deu-se um passo decisivo para os trabalhadores do comércio de Belo Horizonte. Foi realizada a primeira reunião que marcou a criação da União dos Empregados no Comércio de Belo Horizonte (U.E.C.).
Nesse encontro, foram eleitos os primeiros diretores e formada a comissão responsável pela elaboração dos estatutos. Nascia, ali, a entidade que daria forma a um desejo coletivo que já circulava nos balcões, nos fundos de loja e nas conversas ao fim do expediente.
O crescimento foi rápido. Em pouco tempo, a União já reunia cerca de 250 sócios fundadores — número expressivo para a época — e seguia em expansão. A primeira sede, instalada na Rua Tupinambás, nº 312, tornou-se um espaço de encontro, escuta e organização.
Desde o início, a proposta ia além da reivindicação trabalhista. A entidade oferecia biblioteca, atendimento médico, apoio social, cursos e atividades culturais, afirmando-se também como espaço de formação e convivência em uma cidade ainda carente de acesso à cultura.
Para nós, organização sempre foi sinônimo de luta — e também de cuidado.

A palavra impressa como ferramenta de luta

Em 30 de outubro de 1925, demos outro passo fundamental na construção da nossa identidade coletiva: o lançamento do jornal O Mercúrio, órgão oficial da U.E.C.
Naquele período, a imprensa tinha papel central na formação da opinião pública. Jornais, revistas e panfletos eram instrumentos de debate político, cultural e social. Inspirados por esse ambiente, entendemos que comunicar era também lutar.
O Mercúrio informava, formava, denunciava abusos e fortalecia a consciência de classe. Circulava entre os trabalhadores, levava notícias às lojas, dava voz à categoria. Desde cedo, aprendemos que quem não comunica sua luta corre o risco de perdê-la no silêncio.
1926: a batalha pelo horário
O ano de 1926 marca o início de uma luta que atravessaria todo o século: a luta pelo direito ao tempo.
A U.E.C. passou a cobrar com firmeza o cumprimento da Lei Municipal nº 211, de 1921, que determinava o fechamento das casas comerciais às 18h nos dias úteis e ao meio-dia nos feriados. Aquilo que parecia simples exigia enfrentamento diário com empregadores e autoridades.
Essa disputa não era apenas sobre relógios e portas fechadas. Era sobre vida. Sobre poder voltar para casa antes da lua despontar no céu. Sobre ter tempo para estudar, conviver, descansar. Em uma época em que o lazer popular se expressava na música, nas festas de bairro, nos encontros em praças e coretos e nas primeiras experiências radiofônicas, o tempo livre era também direito à cidade.
Ali se estabelece um dos fios centrais da nossa história:
a defesa da jornada digna, do descanso e da vida para além do balcão.
1929: o direito vira lei — e a cidade muda
O ano de 1929 foi intenso. O mundo inteiro sentiu os impactos da grande crise econômica internacional, que abalou mercados, reduziu o consumo e gerou insegurança. No Brasil, os efeitos ainda começavam a ser sentidos, mas o clima de instabilidade já rondava o comércio.
Belo Horizonte, ao mesmo tempo, passava por transformações profundas. A cidade inaugurava símbolos que atravessariam gerações, como o Mercado Central, espaço vital do comércio popular, e o Viaduto Santa Tereza, marco do crescimento urbano e da circulação de pessoas e mercadorias. O Mercado Municipal (atual Mercado Central) foi inaugurado em 7 de setembro de 1929. O Viaduto Santa Tereza foi construído em 1929 e tornou-se um dos símbolos urbanos da capital.

Para nós, comerciários, 1929 ficou marcado por uma conquista histórica:
a instituição do Feriado do Comerciário, por meio da Lei Municipal nº 346, garantindo o fechamento do comércio em 30 de outubro.
Foi o primeiro feriado de categoria oficialmente reconhecido na capital. Uma vitória construída com mobilização, articulação política e persistência. Pela primeira vez, o direito ao descanso da categoria era reconhecido em lei municipal.
Um encontro simbólico com o futuro
Ainda em 1929, um episódio curioso aproxima nossa história da história da cidade e do país. Juscelino Kubitschek, então médico recém-formado, enviou carta colocando-se à disposição para atuar como médico da U.E.C..

A contratação de JK não chegou a se concretizar, mas o gesto é simbólico. Desde cedo, o sindicato dos comerciários cruzava caminhos com personagens que ajudariam a moldar Belo Horizonte e o Brasil.
Nossa história sempre caminhou junto da história da cidade.
Você sabia?
A Rua dos Caetés era conhecida como Rua dos Turcos pela forte presença de comerciantes de origem árabe, sobretudo sírios e libaneses, que ajudaram a moldar o varejo urbano da capital.
O jornal O Mercúrio, lançado em 1925, foi o primeiro veículo sindical dos comerciários de Belo Horizonte.
A principal luta da categoria, já nos anos 1920, era o cumprimento do horário de funcionamento do comércio, tema que já aparecia na Lei Municipal nº 211 (1921).
1929 foi um ano efervescente em Belo Horizonte, marcado pela inauguração do Mercado Central e o Viaduto Santa Tereza. O feriado municipal do comerciário também foi instituído nesse ano pela Lei Municipal nº 346 (1929), consagrando o 30 de outubro ao empregado do comércio.
Assim era o Brasil e o mundo
O Brasil vivia os últimos anos da República Velha, marcada por desigualdades profundas e pouca proteção ao trabalhador urbano. A legislação trabalhista ainda era incipiente, e os direitos precisavam ser conquistados na prática, pela organização coletiva.
No mundo, 1929 marcou o início da grande crise econômica global, que afetaria comércio, emprego e consumo por anos. Mesmo antes de seus efeitos completos, o cenário já exigia resistência e solidariedade.
No Brasil, a política nacional do período inclui o governo de Washington Luís (1926–1930), que atravessou a turbulência do fim da década e terminou com sua deposição em 24 de outubro de 1930. Em Minas Gerais, ganhava destaque a liderança de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (1926–1930), figura central na política estadual e nas articulações que desembocariam na virada de 1930.
Assim era o comércio
O comércio era predominantemente de balcão, baseado em armazéns, casas de secos e molhados, armarinhos e lojas de tecidos. Os instrumentos de trabalho eram simples: balcões de madeira, cadernetas, caixas registradoras rudimentares e livros de anotação.
A moeda era o réis. Os salários eram baixos e instáveis. A principal luta era pelo cumprimento de horários e pelo reconhecimento do trabalhador como sujeito de direitos.
E é por isso que uma lei municipal como a Lei nº 211 (1921), ao fixar limites de funcionamento e regras por tipo de estabelecimento, virava — na prática — um campo de disputa diária entre o que estava no papel e o que acontecia atrás do balcão.
Política e cultura
- Vozes da política: no Brasil, o período é marcado pela Presidência de Washington Luís (1926–1930), ainda sob a República Velha. Em Minas Gerais, destaca-se o governador Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (1926–1930), liderança central da política estadual na transição para os anos 1930.

- Cidade e vida pública: Belo Horizonte vivia hábitos urbanos de passeio e convivência em praças, jardins, cinemas e teatros, onde a população se encontrava, conversava e acompanhava a vida social do Centro.
- Rádio e cultura popular: a Sociedade Rádio Mineira (PRC-7) realiza as primeiras transmissões em BH em 16 de dezembro de 1925, anunciando a chegada do rádio. No cenário musical brasileiro, artistas como Francisco Alves e Pixinguinha já eram grandes referências da época.

- Educação e artes: em 7 de setembro de 1927, é criada a Universidade de Minas Gerais (UMG), futura UFMG, fortalecendo BH como pólo intelectual e cultural.
- Mercado Central: em 7 de setembro de 1929, o Mercado Municipal (atual Mercado Central) é inaugurado, tornando-se rapidamente símbolo do comércio, do abastecimento e da convivência popular na cidade.
- Literatura e ideias em ebulição: em 1928, Mário de Andrade publica Macunaíma, obra-chave do modernismo brasileiro, em que a linguagem do país e seus contrastes viram literatura viva. No mesmo ano, Oswald de Andrade publica o Manifesto Antropófago (maio de 1928), propondo uma cultura brasileira capaz de “devorar” influências e recriá-las com identidade própria.
- Artes visuais e o Brasil em imagem: também em 1928, Tarsila do Amaral pinta Abaporu (janeiro de 1928), uma das obras mais emblemáticas da arte brasileira, marco da fase antropofágica e símbolo de um país que buscava se ver com novos olhos.

- Festa, música e rua: no Rio de Janeiro, a agremiação Deixa Falar é fundada em 12 de agosto de 1928, frequentemente lembrada como referência pioneira na história das escolas de samba, quando o samba se organiza e ganha novas formas de presença pública.